quarta-feira, 31 de julho de 2013

Greve da PC completa 51 dias.

Representante do Sindpol afirma que delegacias de Ipatinga funcionam em situação precária. Sem efetivo, inquéritos são arquivados sem conclusão. 
IPATINGA- Em função da greve geral, iniciada no dia 10 de junho, apenas 30% do efetivo de cada delegacia da Polícia Civil de Minas Gerais funcionam atualmente. A greve, que busca uma reestruturação da corporação e melhorias de salário não tem data para chegar ao fim. Nesta quarta-feira (31) o movimento completa 51 dias.
Em Ipatinga, a greve não chegou a total adesão e apenas alguns setores estão paralisados ou em funcionamento com horários reduzidos. Este é o caso da vistoria de veículos e confecção de carteiras de identidade. Antes eram confeccionadas cerca de 60 identidades por dia, mas, atualmente, são apenas 20. Já o setor de vistoria, que atendia em dois turnos, agora funciona apenas no período da manhã.
Representante do Sindicato dos Servidores da Polícia do Estado de Minas Gerais (Sindpol) em Ipatinga, o delegado Alexandro Silveira Caetano recebeu a reportagem do DIÁRIO DO AÇO para falar sobre a situação da 1º Delegacia Regional da Polícia Civil e apontou que alguns trabalhos não são concluídos pela falta de funcionários. “As delegacias em Ipatinga só estão trabalhando em situações de flagrante ou em casos considerados inadiáveis. Cumprimos um ou outro mandado de prisão e apenas alguns mandados de busca e apreensão. Os outros casos têm que ser arquivados devido à carência de efetivo”.
O delegado também relatou que a falta de funcionários é um problema que atinge não só o Vale do Aço. “Pouco tempo atrás o governo estadual lançou um dado apontando que Minas precisa ter um efetivo de 18.500 policiais civis. Atualmente são apenas 9 mil, ou seja, estamos com menos da metade do número básico. A situação é desesperadora e essa greve é um pedido de socorro da Polícia Civil”, enfatizou o delegado.
A carência de equipamentos fundamentais para o trabalho dos policiais é outro ponto discutido entre os grevistas. O delegado informou que em algumas delegacias não há coletes balísticos, utilizados para a proteção de policiais durante as operações. “Falta material, como é o caso dos coletes, essenciais para a execução dos trabalhos. É a mesma coisa que um jornalista entrevistar sem um gravador ou um trabalhador de construção sem um capacete e uma luva. É um equipamento de proteção individual obrigatório e essencial, e nós não temos. A política do governo tem deixado a desejar na segurança pública, sobretudo no que diz respeito a assistência à Polícia Civil de Minas Gerais”, detalhou.
O delegado também informou que, nos dois anos anteriores, cerca de 20 policiais civis de Ipatinga se aposentaram, foram transferidos ou presos. Desde então, nenhuma das vagas em aberto foi preenchida, o que aumentou ainda mais o desfalque e uma situação de calamidade. “Temos cerca de 20 policiais a menos aqui agora. Antes da greve nós já trabalhávamos com 30% de efetivo. Agora que estamos em greve trabalhamos com 30% dos 30% que tínhamos anteriormente. É o mínimo do mínimo de funcionários atuando e na medida do possível, dentro dos 30%, estamos atendendo a população”, declarou o delegado.
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Sem efetivo, operações policiais estão cada vez mais escassas
Mais de 500 inquéritos arquivados por falta de efetivo
Enquanto o índice de crimes cresce de forma assustadora no Vale do Aço e, em especial, em Ipatinga, internamente, a Delegacia de Polícia de Polícia Civil realiza apenas o primordial no que diz respeito às investigações dos crimes. O delegado Alexandro Silveira Caetano contou que apenas os flagrantes são registrados atualmente e, os demais crimes, que exigem uma investigação maior, são arquivados.
“O flagrante vem semi-pronto, porque a Polícia Militar já coleta a maioria das provas, entre as testemunhas e a declaração dos conduzidos. A PC só precisa reunir uma ou outra prova pra concluir o inquérito, que só tem 10 dias para ser fechado. Mas nas situações em que os autores não são presos em flagrante a PC não pode trabalhar porque não há funcionários para saírem às ruas e investigar”. O delegado também relatou que existem mais de 500 inquéritos arquivados e que não são investigados por falta de efetivo.
Sobre a realidade dos índices de violência e criminalidade na região o representante do Sindpol em Ipatinga explicou que em função do crescente número de roubos e furtos na cidade, é possível afirmar que as taxas de crimes cresceram consideravelmente.
“Só esse mês, em que estou na Delegacia de Furtos e Roubos já foram relatados 33 flagrantes de furtos. Esse índice inclui somente aqueles em que os autores foram presos. Mas ainda existem aqueles em que os suspeitos não foram presos e aqueles em que as pessoas não deram conta do furto ou não fizeram a ocorrência. Isso mostra como o nível de violência tem aumentado na cidade e como a Polícia Civil, em função da carência de estrutura, não pode e não consegue oferecer segurança pública para a população”, detalhou Alexandro Silveira Caetano.
Os resultados da precariedade na estrutura dos órgãos de segurança do estado podem ser vistos em estudos como o “Mapa da Violência 2013: Homicídio e Juventude no Brasil”, publicado pelo Centro de Estudos Latino-Americanos (Cebela), no dia 18 de julho. O documento mostra que nos anos de 2009, 2010 e 2011, Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo e Santana do Paraíso enfrentaram uma escalada de crimes violentos contra a vida e somaram 300 homicídios. Ipatinga lidera os dados com 159 mortes violentas; seguida de Coronel Fabriciano com 78; Timóteo, 43; e Santana do Paraíso, com 20 mortes violentas.
Viaturas enferrujam sem manutenção
A Delegacia de Polícia Civil em Ipatinga também tem problemas relacionados à manutenção de viaturas. “Há viaturas no pátio que estão paradas com apenas uma peça ou um pneu furado, mas não há verba para a manutenção. Antigamente, a gente ia ali e pedia uma peça ou outra pra um empresário, mas a polícia não pode fazer isso para sempre. A gente não tem que pedir, o Estado é que precisa oferecer”, declarou o delegado.
Ele conclui reforçando as exigências dos grevistas, que não lutam apenas por aumento de salário, mas principalmente por uma reestruturação interna na Polícia Civil e melhores condições de trabalho.
“Quem sofre com essas carências da polícia é a população, que fica vulnerável a violência. Não reivindicamos apenas os salários, mas também a possibilidade de podermos realizar a contento nossa missão. É diante dessas situações que a gente tem feito greve, porque é o instrumento que temos para chamar a atenção do Governo e conquistar melhorias. São muitos anos de desmazelo e omissão”, desabafou o delegado.

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