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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mesmo com três rios, Pompéu enfrenta seca e prejuízos no campo


Produtores não conseguem produzir comida nem para o gado.
Mais de 60 nascentes já secaram no município, segundo a Prefeitura.

Anna Lúcia SilvaDo G1 Centro-Oeste de Minas
Rio Pará em Pompéu (Foto: Carlos França/Nossas Gerais)Rio Pará em Pompéu é um dos reflexos da estiagem
(Foto: Carlos França/Nossas Gerais)
G1 tem mostrado com frequência as cidades do Centro-Oeste do estado que passam por dificuldades por conta da falta de água. Em Pompéu, a situação não é diferente e, mesmo o município tendo uma localização geográfica favorecida, entre os três maiores rios do estado: São Francisco, Pará e Paraopeba; a população, principalmente da zona rural, enfrenta a seca mais rigorosa da história. “A seca castiga porque quem mora à beira de um desses rios tem um pouco de água que resta, mas quem não mora nesses locais sofre mais ainda”, afirmou o presidente do Sindicato Rural, Antônio Carlos.

Para piorar, a Secretaria de Indústria Comércio e Agropecuária tem feito um levantamento solicitado pelo Comitê da Bacia Hisdrográfica do Rio São Francisco para catalogar as nascentes e córregos que secaram na região e estima-se que, até o momento, foram contabilizadas mais de 60 nascentes secas. "Temos feito esse levantamento para buscarmos medidas de políticas públicas para ajudar os produtores rurais, aqueles que por exemplo não têm condições de arcar com custos altos de investimentos nas propriedades, como a perfuração de poços", disse o secretário Geraldo Édson de Campos.
Cristiano Mota é produtor rural há dez anos e há cinco meses fez um investimento de R$ 500 na propriedade. Ele instalou um pivô central para irrigar uma plantação de milho com intuito de produzir silagem para os animais em uma área de 45 hectares. A expectativa era de produzir 50 toneladas por hectare. O alimento seria vendido na região a outros produtores, contudo, por conta da estiagem, não produziu nada do que foi planejado. “A chuva não veio e o pivô não chegou a funcionar um só dia sequer após a instalação”, contou.
Pivo não funciona desde julho por falta de água (Foto: Cristiano Sarley Flores da Mata/Divulgação)Pivô não funciona desde julho por falta de água (Foto: Cristiano Mota/Divulgação)
O córrego do Bugio de onde o produtor captaria água para o pivô central secou. A imagem nunca vista antes por ele impressiona. “Sou produtor há muito tempo e água é fundamental para as atividades no campo. Então é claro que ficamos muito preocupados com esse período de estiagem tão rigoroso. A pessoas mais velhas na região contam que nunca viram o córrego nessa situação”, relatou.
O produtor ainda contou que na fazenda dele há um poço artesiano com capacidade de 7.500 litros por hora. Além de abastecer a casa e ser útil para atividades diárias, a água desse poço mata a sede de 300 cabeças de gado. “Se não fosse esse poço artesiano que eu tenho já faz tempo, não teria condições de manter o gado”, afirmou.
Nascente secou na propriedade do produtor rural (Foto: Cristiano Sarley Flores da Mata/Divulgação)Córrego secou na propriedade do produtor rural
(Foto: Cristiano Mota/Divulgação)
Os problemas com a falta de chuva começaram em 2013, neste mesmo ano o produtor implantou uma lavoura de sorgo em  27 hectares com expectativa de produzir 35 tonaledas do alimento, a falta de chuva fez com que ele produzisse apenas 15 toneladas. "Plantei o sorgo justamente porque ele é muito resistente à seca, mas como não choveu de jeito nenhum não houve como produzir o que foi planejado", disse.
A silagem na região, segundo Cristiano, há pouco tempo era vendida a R$ 110 a tonelada e hoje por conta da oferta e demanda o custo não sai por menos de R$ 180 a tonelada. "Tive muita procura pelo alimento e não tive como fornecer", afirmou.
Segundo o  presidente do Sindicato dos Produtores Rurais Antônio Carlos, em 2013 choveu 800 milímetros de janeiro até exatamente 30 de setembro. Um estudo feito este ano aponta que até o mês de outubro choveu 245 milímetros. “É assustador, pois falta água e consequentemente falta comida. Temos um levantamento que mostra que precisamos de pelo menos 100 milímetros de chuva até o fim do mês se não as atividades estarão comprometidas. E isso deve resolver 30% a 40% do problema. É preciso que a chuva encha as barraginhas para o gado ter água para beber", explicou.
Como medida emergencial o município tem usado dois poços artesianos para encher dois caminhões e um trator-pipa que levam diariamente o abastecimento para as comunidades rurais mais prejudicadas. Mas nem todas são atendidas. "Certamente não dá para atender a todas as pessoas, mas há um levantamento das mais prejudicadas, e estas sim são as que recebem assistência. Devido à grande demanda dessa seca atípica infelizmente não dá para atender todo mundo”, disse o secretario de Infraestrutura Serviços Urbanos e Meio Ambiente, Selmo Alexandre Pereira de Noronha.
Problemas em escala
Geraldo ainda ressaltou que a falta de água causa problemas em escala. Na cidade a principal atividade econômica na agropecuária é a produção de leite. O produto é exportado para grandes empresas do país. Com a falta de água o gado leiteiro passa a produzir menos devido à baixa qualidade e pouca oferta dos alimentos que ficam com a produção comprometida sem chuva. “Os produtores têm deixado de produzir 20% da capacidade. Essa perda significa que o município deixa de ganhar R$ 120 mil por dia. Mas isso não é tudo. Também temos produção de carvão vegetal e cana de açúcar. Essas atividades também estão comprometidas”, enfatizou.
Seca atinge cidade desde o início (Foto: Geraldo Édson de Campos/Divulgação)Seca atinge cidade desde o início (Foto: Geraldo Édson de Campos/Divulgação)
Assentamentos
A situação de falta de água se repete na em alguns assentamentos localizados próximo ao município, às margens da MG-420 e MG-060. "Temos quatro assentamentos da Reforma Agrária no município, que tem entre cinco e 20 anos. Neles moram centenas de famílias. A situação da seca começou a se agravar em 2013, mas esse ano está realmente atípico. Estamos levando água para pessoas que em épocas anteriores nunca tiveram necessidade", disse o secretário de Meio Ambiente.
No assentamento Paulista, localizado na MG-060, a água chega uma vez por semana. E com isso as pessoas precisam guardar a água que recebem para todas as necessidades do lar, inclusive as básicas e pessoais. Como ainda relatou o secretário de Agricultura, Geraldo Édson. “As pessoas armazenam a água em garrafas pets e baldes porque sabem que o caminhão tem condições de visitá-las apenas uma vez por semana”, ressaltou.
Codema
O Conselho Municipal  de Desenvolvimento do Meio Ambiente (Codema) juntamente com a Secretaria de Meio Ambiente tem feito campanhas educativas para conscientizar a população quanto ao uso racional da água. Segundo o presidente do órgão, Selmo Alexandre, a campanha pede, entre outras coisas, para que se evite o desperdício.
"Sabemos que se as pessoas colaborarem vamos manter o nível dos reservatórios. É importante ressaltar que Pompéu ainda não passa por racionamento de água e isso será evitado somente se as pessoas colaborarem. A campanha é veiculada em uma rádio que também dá dicas para evitar o desperdício", finalizou.

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